Uma história de superação e resiliência

 

Leide Jass Rodrigues Barrelin

 

Tudo começou em 2014 quando senti pela primeira vez uma dor na mama direita. Uma dor diferente de todas que já senti, normalmente temos no período menstrual, mas era diferente. Não bastava a dor, sentia a mama esquentar muito e era um pesadelo.

 

Parecia que uma luz tinha ascendido dentro de mim, me fazendo acordar e ver que algo de errado poderia estar acontecendo comigo. Comecei a marcar consultas com alguns médicos para investigar. Durante esse tempo tive inúmeros diagnósticos e tomei diversos remédios. Era uma displasia mamária, causada pela falta de vitamina que foi reflexo de uma tendinite, um pequeno cisto (glândula de gordura).

 

Um dia até brinquei com um dos muitos médicos que me atenderam, pois ele me indicou um medicamento e disse que era falta de vitamina. Eu logo perguntei: “se o meu corpo é um conjunto, como pode ter falta de vitamina em um seio só?” Ele apenas riu. Tomei a medicação indicada e as dores só aumentaram.

 

Em outubro do outro ano, já cansada de não saber o que eu tinha exatamente, mas ainda decidida a descobrir o que havia de errado, porque a “luzinha de alerta” não parava de piscar e aí Deus colocou uma médica abençoada no meu caminho. Ela estava investigando outros problemas meus de saúde e pediu uma mamografia, mas, por incrível que pareça, deu nódulos na mama esquerda, naquele que não doía.

 

Pedi que me encaminhasse ao mastologista, mas antes ela pediu um ultrassom, no qual foi confirmado um nódulo na mama direita. O mastologista fez a biópsia e no dia de receber o resultado eu fui sozinha, porque não tinha quem me acompanhasse naquele momento. Tentava aparentar calma, mas lá no fundo sabia que tinha algo errado.

 

O médico, muito educado, disse: “Dona Leide, o resultado deu positivo.” Eu fiquei meio sem entender, atabalhoada, confusa e logo perguntei: “Positivo o quê?” E aí vem a assustadora palavra: “câncer”. O médico me disse: “A senhora está com câncer de mama, antigo e maligno”.

 

A primeira sensação que tive era de que o meu mundo parecia girar. Respirei fundo e senti as lágrimas caírem sem um mínimo de esforço. O médico me estendeu uma caixa de lenços e me esperou chorar. Na verdade, eu nem lembro quanto tempo fiquei ali. Ele, então, começou a falar, mas também não me lembro de muita coisa, era informação demais. Lembro bem que eu só pedia com todas as minhas forças: “Me ajude, Deus! (acho que até disse isso em voz alta.)”

 

Estava no AME (Assistência Médica Especializada) em Ituverava e naquele pouco tempo em que estive ali pensei em tudo: meus filhos, família, morte, dor, medo e incertezas. Disseram para eu passar em outra sala para pegar uns papéis e o encaminhamento para um oncologista, em Franca. Saí daquele consultório com uma dor imensa na alma e, realmente, não sentia os meus pés tocarem o chão, a vontade era a de gritar para o mundo: “Parem de conversar! Parem de sorrir! Eu tenho câncer!!!”

Fui embora arrasada, estava começando um curso de gastronomia que era a minha paixão. Os meus filhos estavam criados e, de repente, um “câncer”. Quando cheguei a casa, chorei, chorei e chorei… Até me esvaziar e me sentir mais leve. Só estava eu e Deus e, naquele momento de tamanha dor, respirei fundo e conversei com Ele. Disse: “Se vou ter que passar por isso, que o Senhor me fortaleça, não me abandone e que a Sua vontade prevaleça!”

 

No dia seguinte, ligaram para mim dizendo que tinham conseguido uma vaga em Barretos. Nossa! Eu chorei de alívio, porque se eu estava com um tumor queria ser tratada no maior Centro de Referência da América Latina. Deus ouviu as minhas preces imediatamente! Comecei a pesquisar, a entrar em sites e as minhas buscas nas redes sociais tomaram outro rumo. Num dia, eu li: “Ou você deixa o câncer te destruir ou você pode usá-lo para ficar mais forte”.

 

Decidi pela segunda opção e, então, comecei a maior batalha da minha vida. É uma montanha de sentimentos e sensações; são medos, incertezas, noites em claro e muito choro. Contar para a minha família e aprender a lidar com a reação de cada um não foi fácil, até porque eles sofrem mais do que a gente. Eu sempre fui a Mulher-Maravilha da família, sempre a postos, resolvendo o problema de todo mundo, nunca tinha ficado, sequer, internada, muito menos doente (a não ser por um resfriado).

 

Para eles, era o fim. Foi aí que descobri: eu sou humana! De carne e osso! Em nenhum momento, questionei o porquê ou para que de tudo isso… Decidi! Vou fazer isso ficar mais leve e, a cada dia, exercitar e praticar a minha fé sem perder a esperança. Tracei uma meta, um passo de cada vez. Associar o câncer à morte é inevitável, mas alguém muito especial disse uma coisa para mim: “Câncer não é sentença de morte, o mundo é feito de mim e não para mim”.

 

No dia 1º de junho fui à primeira consulta no Hospital de Câncer de Barretos e ao início de uma nova vida. Parece loucura, mas comecei a ver e a viver a vida de maneira diferente. Exames, médicos, pessoas maravilhosas e, acima de tudo, amor. Descobri que não estava sozinha nessa caminhada e, Deus, com o Seu imenso amor, levantou um Exército de Anjos e o colocou no meu caminho.

 

No dia quatro de agosto, passei por uma quadrantectomia com reconstrução imediata sem prótese. Se foi difícil o pós-operatório? Claro que foi! Foram oito dias com dreno, movimentos limitados e muita dor. No início de setembro, veio a notícia: 17 sessões de quimioterapia, 30 de radioterapia e um monte de perguntas na minha cabeça. 13 dias após a primeira quimio, veio o momento assustador: o meu cabelo começou a cair aos montes. Decidi, no dia seguinte, passar a máquina e ali, na frente do espelho, me vi despida da minha vaidade. Muitos podem dizer: é apenas cabelo, mas ninguém vai se solidarizar e ficar careca com você. Dói.

 

O fato é que decidi viver todas as fases e momentos. Chorei muito, mas não foi um choro de tristeza. Eu não sei explicar… Foi uma sensação de libertação, assumi a minha careca de cabeça erguida e acreditem: eu me achei linda! Nunca reclamei, só agradeci e agradeço a Deus. Ficar chorando e sendo infeliz me faria ingrata depois de tanta demonstração do amor de Deus, reclamar seria um desaforo.

 

Tem dias que amanheço triste e com o corpo cansado, mas me recuso a ficar assim. Passei pelas quimioterapias e senti todos os efeitos colaterais… Horríveis. A sensação era a de que não iria sobreviver, mas jamais perdi a esperança. Daqui a duas semanas, vou começar a radioterapia com 30 sessões. Sinto o corpo cansado, mas é o processo de um tratamento que não tem tempo certo para acabar, pois quando se aprende a exercitar a fé, não se deve ficar reclamando e murmurando. Quando esquecemos um pouco do nosso sofrimento e começamos a olhar o próximo e a agradecer (sim, agradecer!), a caminhada fica mais leve, o tratamento mais tranquilo, a vida se torna realmente uma dádiva e a família e amigos se tornam bênçãos.

 

Aprendi a ser otimista, a ver amor em tudo e em todos, a compartilhar a minha experiência e, mesmo que esteja doendo e difícil, sou sempre grata. No meu rosto, sempre terá um sorriso. Sinto um imenso orgulho do caminho que já percorri e essa fé embrulhada de esperança é o que me salva todos os dias. A fé e o amor curam e restauram.

O que vai ser do amanhã? Sinceramente, eu não sei! Vivo o hoje com as minhas limitações, mas sempre agradecida a Deus por mais um dia. Seja qual for o resultado, quero que a vontade soberana dEle prevaleça.

 

 

 

 

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